Colunistas
A DESCRENÇA NA POLÍTICA E NA SUA REDENÇÃO.
publicado em 22 de junho de 2017 - Por Monsenhor Giovanni Barrese
Penso que todos estamos preocupados com a triste realidade de nossos dias. Os problemas se avolumam e parece que o horizonte das respostas e soluções não se vislumbra.
No âmbito do poder Executivo vemos a presidência acuada por denúncias de conluios para beneficiar grupos, partidos, empresas e pessoas. No Legislativo denúncias semelhantes e um vai e volta de acertos e desacertos que têm a finalidade de preservar espaços para as eleições de 2018. O Judiciário, máxime os órgãos superiores (STF e TSE), exposto pelas transmissões da TV, a fazer com que seus membros tenham a tentação do estrelismo. Isso tudo tem levado muita gente a tomar a posição do descaso, da desilusão, da certeza que “tudo vai acabar numa grande pizza de marmelada” (como diria um conhecido comentarista da TV). Ao escrever estas considerações tenho em mente a fundamental certeza de que a Política, entendida como a arte de buscar o Bem Comum, não pode ficar sujeita ao desencanto e à descrença. E, muito menos, no largo espectro dos três poderes, ser vilipendiada e reduzida a algo como o lixo. Urge o comprometimento da cidadania e, se me permitem, um posicionamento firme daqueles que se declaram cristãos. Ao falar das mazelas que brotam todos os dias na velocidade da mídia, num raciocínio bem simples, a primeira questão que surge é que o que reclamamos no “andar de cima” tem seus fundamentos “cá embaixo”! Já abordei, em outro momento, as pequenas falcatruas que são operadas no miúdo das ações quotidianas: pedir atestado de saúde sem estar doente. Pede-se para ir passear, ter uma folga, emendar um feriado. Receber troco a mais e não devolver. Caixa e balconista que se danem! Dar um cheque sabendo que não se tem como cobrir. Quem o recebeu que se vire! Apoiar alguém em busca de voto com a intenção de obter algum favor, emprego, etc. Executar alguma função ou trabalho à custa de “engraxada”, propina. Creio que os leitores e eu, se quiséssemos fazer exercício quase masoquista, iríamos acrescentar muito mais “ocorrências”. Permito-me lembrar aqui algumas indicações do Magistério da Igreja no chamado Documento de Aparecida, emanado da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, em 2007. Já com 10 anos e, infelizmente, ainda bastante desconhecido. O documento traz grande número de indicações para o engajamento dos cristãos no leque da vida de cada dia. Este documento está na continuidade de tudo o que se refletiu nos encontros anteriores, desde a reunião no Rio de Janeiro em 1955, passando por Medellin, Puebla e Santo Domingo. Mas a fonte principal está no Concílio Vaticano II, no documento que fala da atuação dos leigos (cristãos que não têm o ministério ordenado). Este documento fundamenta a participação dos cristãos na própria missão de Jesus Cristo. Missão que não se limitou e não se limita a olhar para o céu. Mas olha para o céu com os pés no chão. Porque aqui a vida se constrói! Ao abordar os diferentes campos de ação (o documento usa a palavra “apostolado” para lembrar missão derivada do mandato de Cristo) se fala do ambiente social como um lugar de obrigações dos cristãos. Cita-se o ambiente do trabalho, da profissão, do estudo, etc. Os cristãos realizam a missão da Igreja no mundo pela coerência da vida, pela probidade em qualquer negócio, no cumprimento dos deveres cívicos. Façam valer o peso de sua opinião para que o poder civil se exerça com justiça, não recusem exercer cargos públicos. No belíssimo documento Gaudium et Spes (Alegria e Esperança) aponta-se para que todos os cristãos tenham consciência de sua vocação especial e própria na comunidade política; por ela são obrigados a dar exemplo de sentido de responsabilidade e dedicação pelo bem comum, de maneira a mostrarem também com os fatos como se harmonizam a autoridade e a liberdade, a iniciativa pessoal e a solidariedade do inteiro corpo social, a oportuna unidade com a proveitosa diversidade. Reconheçam as legítimas opiniões, divergentes entre si, acerca da organização da ordem temporal e respeitem os cidadãos e grupos que as defendem honestamente. Os partidos políticos devem promover o que julgam ser exigido pelo bem comum, sem que jamais seja lícito antepor o próprio interesse ao bem comum. Creio que vale a pena retomar atitude de boa fundamentação para um agir que coloque indicações de como superar a desesperança que se abate sobre todos nós. Todas as formas de corrupção podem ser vencidas se isso for, de verdade, desejo e empenho. Está mais que na hora de mensalinhos, mensalões, lava jato e mala com grana desapareçam!
