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A dissimulação

publicado em 24 de outubro de 2017 - Por Pedro Marcelo Galasso

Tem sido cada vez mais comum o embate entre os setores mais conservadores e mais progressistas da sociedade brasileira que, por definição e História, é inculta, raivosa e violenta, além de incapaz do diálogo e da compreensão de seus próprios defeitos, imputando-os aos demais, ao povo ou a quaisquer outras denominações da moda e do acaso.


A questão fundamental é – qual será o final deste embate? Qual desses setores, se é que são tão diferentes assim, é capaz de propor um horizonte que seja inclusivo ou que procure resolver nossos problemas mais urgentes, como a fome, a exclusão e a violência? Qual o cenário que se apresenta para a construção coletiva de um futuro, julgando que haja esse interesse coletivo, mesmo com as centenas de ações que tornam tal possibilidade improvável?

Para ilustrar tal cenário, as últimas semanas foram exemplares.

Primeiro, a polêmica do MAM. As mostras de arte são eventos específicos em um país que dificulta e impede o acesso e o acesso as concepções artísticas que nem sempre são palatáveis ao público mais conservador e desavisado. As críticas ao espetáculo são legítimas, pois nem sempre temos o consenso sobre nossa liberdade de expressão e nem sobre o que é a arte, mas os argumentos e a violência contida neles são tão assustadores com relação a performance, ou seja, as críticas ao espetáculo e sobre a participação de uma criança, acompanhada pela mãe que estava ciente sobre o teor do espetáculo segundo os avisos e indicativos no local do evento, devem ser construídas sem os argumentos da violência, da perseguição, das ameaças de morte e até de ataques ao MAM.

Existem vias legais e jurídicas para as pessoas que se sentiram ofendidas ou que viram na apresentação um ato de pedofilia se posicionarem sobre o que foi apresentado. Tudo isso é normal em uma democracia que pretende desenvolver suas noções de aceitação ou de limite.

No entanto, os discursos de ódio que vimos ao longo da semana ferem todas as noções de civilidade e ameaçam o horizonte constitucional do país. De novo, existem mecanismos legais e jurídicos para as contestações ou defesa do que foi apresentado no MAM, não cabendo o julgamento violento sobre o tema.

Segundo, durante todo o alvoroço sobre o MAM, nosso governo federal propôs uma série de negociações do REFIS que ultrapassaram os limites do aceitável e que marcam a postura de um governo ilegítimo que compra, da forma que for possível, apoio para a sua manutenção enquanto onera a sociedade brasileira e a corrompe com suas falsas promessas de sacrifício para o desenvolvimento e perdoa dívidas milionárias em até 90% e premia o saldo devedor com prazos de pagamentos de 14 anos. Vergonha imaginar que tal ação não tenha tido a mesma repercussão na vendida e corrupta mídia brasileira.

Terceiro, neste pacote de perdões milionários não é surpresa a notícia de que a Receita perdoou mais de 200 milhões do jogador Neymar, símbolo de tudo o que o Brasil expressa de pior e, por este motivo, elevado ao patamar de herói para um país que nem de longe expressa o mínimo de decência e de honestidade, cuja construção se faz sobre figuras desprezíveis como o jogador acima.

Em quarto lugar, fica o desespero de figuras como Bolsonaro, com seu discurso violento e inconstitucional, e Frota, ator de péssima categoria e cujo final de carreira é marcado por filmes que apresentam a temática que agora ele critica, ganharem força em uma sociedade civil que critica as apresentações artísticas, mas que alimenta suas crianças e jovens com músicas de baixa qualidade e com letras que estimulam o comportamento criticado, que reclama da corrupção, mas que é incapaz de agir de forma íntegra no que tange a coisa pública, que critica a cobrança abusiva de impostos, mas que não se move quando assiste ao perdão milionário de dívidas para setores e figuras que nem de longe contribuem para a construção de um país melhor e mais justo, que critica a pornografia e a pedofilia, mas tem um dos maiores índices de consumo de pornografia infantil via internet do mundo.

Enfim, a dissimulação cai muito bem para uma sociedade que caminha com a razão e a desrrazão lado a lado.

Pedro Marcelo Galasso – cientista político, professor e escritor. E-mail: p.m.galasso@gmail.com