Colunistas
A falácia do novo
publicado em 8 de junho de 2017 - Por Pedro Marcelo Galasso
Durante alguns meses, grupos políticos fervorosos, messiânicos, obtusos e violentos culparam um único partido político como a fonte de todo o Mal e o elevaram a categoria do que pior existia no Brasil, mas passados alguns meses a falácia do único partido político corrupto se desdobrou em um cenário econômico e social aterrador e derrubou a pouquíssima confiança que as pessoas de bom senso tinham sobre os poderes republicanos.
A falácia do Novo se torna explícita quando vemos um Estado que procura, de formas vexatórias e abusivas, garantir que pessoas que possam entregar cadeias de corrupção que nos consomem, que pretendem proteger políticos e seus fisiológicos partidos políticos numa tentativa de salvar um governo tão ilegítimo quanto o anterior por ser resultado de práticas corruptivas que elegeram inúmeros presidentes e vices, dentre eles o atual presidente do Brasil e sua antecessora, não sejam presas e tenham seus pecados perdoados com as danosas e inaceitáveis delações premiadas.
Aqui cabe uma pergunta retórica – se inúmeros governos foram eleitos com o financiamento de campanhas de várias empresas, como a Odebrecht que teve o disparate de criar um setor que administrava as práticas corruptoras, qual é a legitimidade destes governos? Se a ideia da eleição é escolher o grupo mais preparado para a criação do Bem Comum e para a manutenção do Estado de direito, qual a legitimidade de governos eleitos para praticarem atos de corrupção que lesam o Bem Comum e o Estado de direito? Como exigir consciência dos eleitores se ela de nada serve para a escolha justa e honesta de nossos governantes?
A falácia do Novo é o resultado de instituições corruptas e corruptoras que se associam no âmago do Estado para que a apropriação de recursos públicos se concentre nas mãos de poucos o que aumenta as mazelas e a miséria de muitos e as mentiras que alimentam o processo são tão intensas que ninguém acredita que o Brasil tenha solução e, portanto, é logico participar dos processos de corrupção e não lutar ou resistir a eles. Como todos fazem, talvez seja o único caminho a ser seguido, perpetuando práticas que prejudicam a todos nós.
Isso sem considerarmos as decisões questionáveis da Justiça brasileira que trata as pessoas segundo suas posições sociais desrespeitando de forma clara a isonomia dos direitos republicanos que estão presentes em nossa tão aviltada e mutilada Constituição.
Neste contexto, parece ser hipócrita ficar assustado com a violência que é praticada pelo Estado e pelas dezenas de formas de violência praticadas pela sociedade civil que vão desde os crimes contra o patrimônio, os latrocínios, o tolerado e escancarado tráfico de drogas até os desrespeitos no trânsito que fazem do Brasil o país que mais mata no trânsito, um índice de violência e de corrupção aceita por todos e praticada por milhões de pessoas todos os dias cujo saldo é um número de mortes maior que os índices vistos em regiões controladas por grupos de terroristas ou de narcotráfico.
Nada mudou, nenhuma melhora ocorreu porque a classe política corrupta, que tira nossos direitos, que mutila a Constituição e que se coloca acima de todos nós, é a mesma que governa a República Nova desde o governo Sarney. Agora, a luta é para a prisão do controverso ex-presidente Lula para que ele não concorra as próximas eleições, pois ele tem chances monumentais de se reeleger graças as ações desastrosas e vergonhosas do atual presidente e do Congresso Nacional, ou seja, uma falácia que alimenta outras falácias, de esquerda e de direita. Nada há de Novo, além da falácia do Novo.
Pedro Marcelo Galasso – cientista político, professor e escritor. E-mail: p.m.galasso@gmail.com
