Colunistas
A semana, os ritos, os perdões…
publicado em 4 de setembro de 2017 - Por Pedro Marcelo Galasso
Outra semana desastrosa de um governo que não consegue mais esconder seu fracasso e que expressa seu desespero com frases vazias e com a compra de apoio político para se salvar e para aprovar reformas que favorecem a poucos, impostas a uma maioria indefesa e que não tem a consciência do que se apresenta.
As notícias são tão ruins e inacreditáveis que fica difícil escolher as mais relevantes ou embaraçosas.
Comecemos pelo perdão concedido ao senador Aécio Neves pelos seus pares no Congresso Nacional. É desnecessário dizer o quão inaceitável é a alegação do Senado para a não aceitação das acusações contra o senador depois de tudo o que foi noticiado, exposto e analisado. Somente uma Política degenerada como a nossa, em uma casa que nem de longe inspira confiança, pode tomar uma decisão tão afrontosa a todas as pessoas honestas e de bom senso. Caso fosse uma pessoa comum, cujos exemplos não faltam, seria execrada, condenada ao ostracismo, se metade do que foi dito ou feito pelo nobre senador fosse fruto de uma pessoa comum, sem segredos ou fatos que comprometem a classe política brasileira. Constrangedor é assistir aos membros do PSDB defenderem tal figura política e, o que é o pior, mas nem de longe uma novidade, a possibilidade de costurarem um acordão entre PSDB, PT e PMDB numa tentativa vexatória de salvar o maior número possível de culpados ou de acusados destes partidos.
Talvez as penas contra Palocci e outros membros do PT quebrem a chance de um acordão, o que pode mudar quando os políticos dos outros partidos sofram o mesmo. Algo que já deveria ter acontecido. Entretanto, o rito que vale para Chico, vale para Francisco?
A aceitação das denúncias de corrupção passiva contra o presidente Temer, o pior presidente da História recente de nossa República, aquele que salvaria o país, abrem inúmeros precedentes que vão desde a chance de continuidade do rito, tal qual o circo realizado durante o processo contra a ex-presidente Dilma Rousseff, ou se as acusações serão arquivadas pelo STF, que, a muito tempo, não inspira mais tanta confiança e nem clareza em suas decisões, empoladas por palavras difíceis e um discurso vazio, mas cheio de pompa e circunstância.
Se o STF abre possibilidades de questionamentos e dúvidas, o que esperar da isenção da Justiça e do cumprimento das leis?
Para completar a semana, foi noticiado que a Operação Lava Jato chega ao Estado de São Paulo. Não sabemos o que esperar por conta da força do PSDB no Estado e da força deste partido no STF, com ministros abertamente partidários e simpáticos aos tucanos. As investigações podem escancarar fatos de corrupção em diversas áreas, dentre elas, o metrô paulista, os estádios da Copa do Mundo e outras tantas que são inumeráveis. E este é um dos problemas. São tantos casos, que trazem à tona, outros tantos, que fica quase impossível crer que o nosso quadro burocrático administrativo e jurídico, contaminados até as suas entranhas pela corrupção, serão capazes ou terão a vontade de resolver problemas que os incriminam. Mais do que isso, como os corruptores irão investigar e julgar a si próprios?
O mais triste deste contexto é que ele parece não ter fim. Como se o fundo do poço ficasse cada vez mais fundo, como se estas pessoas fizessem o possível para que o fundo do poço nunca chegue e, com isso, consigam esconder o mal que fazem a todos diariamente.
Como uma última lembrança, após o favorecimento claro da Justiça brasileira para a esposa do ex-governador do Rio de Janeiro, Adriana Ancelmo, foi a vez do ex-médico Roger Abdelmassih conseguir um benefício que deveria ser garantido a todos os presos na mesma condição, mas que não corresponde a realidade dos fatos.
Enfim, outra semana assustadoramente normal no Brasil.
Pedro Marcelo Galasso – cientista político, professor e escritor. E-mail: p.m.galasso@gmail.com
