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Antidemocracia

publicado em 22 de maio de 2018 - Por Pedro Marcelo Galasso

As frases políticas, em determinados contextos, têm um peso que nem sempre pode ser dimensionado, ainda mais quando o que é dito foge do bom senso e parece até uma piada, cujo mal gosto tem tamanho.

O presidente Michel Temer disse que o número de desempregados no Brasil não aumentou, o que ocorre, segundo a visão distorcida e inconsequente do péssimo presidente, é que mais pessoas estão procurando empregos.

O descabimento da frase por si só já expressa a visão que a nossa classe política tem do cotidiano dos brasileiros, envoltos em uma crise que se arrasta e que não será superada tão cedo e, vale lembrar, que ao assumir o presidente Temer garantiu que os problemas econômicos desapareciam em alguns meses por conta da confiança na sua equipe ministerial. Enfim, o cenário que vivemos hoje nem de longe se aproxima daquilo que foi prometido.

Seria interessante, portanto, pensar, em alguns pontos, de que forma a nossa elite pensa ou vislumbra aquilo que ocorre na sociedade brasileira.

Em primeiro lugar, a nossa elite foi beneficiada com a chamada modernização conservadora que se caracteriza por ser um modelo de modernização econômica financiada pelo Estado, como por exemplo o período da Ditadura Militar, entre 1964 e 1985, marcado por avanços industriais que levaram o país a ser considerado o oitavo mais industrializado no mundo, mas que favorece e promove enriquecimento das elites nacionais, com a exclusão e o empobrecimento de camadas significativas da população que não têm acesso a riqueza e a prosperidade produzida.

Em segundo lugar, o sucesso da economia, se é que tal ideia é justa ou verdadeira, é caracterizado por retrocessos, surtos e frustrações, na economia, na política e na sociedade, que aumentam o abismo social e tornam improváveis as chances de ascensão social das camadas mais pobres, além de estraçalhar os serviços públicos que, por sua vez, atendem tais camadas. Isso sem contar com o processo de apropriação indevida das verbas públicas que são devoradas por agentes corruptores e corruptivos.

Em terceiro lugar, o Estado forte e autoritário tutela e manipula as ações sociais e políticas, reprimindo o que foge dos interesses do status quo ou aquilo que se notabiliza por serem reivindicações legítimas e constitucionais de quem é excluído da partilha da riqueza produzida, ou seja, o Estado opera para atender aos interesses de grupos mais ricos e condena de forma institucional a sociedade brasileira e a manter o abismo social entre os mais ricos e os mais pobres.

E, por último, assistimos e anulação das políticas emergentes ou não-institucionalizadas que nascem da sociedade civil, especialmente as que nascem dos grupos mais carentes, que são tidas como subversivas, abusivas, inconsequentes e violentas, tais como as ações de grupos como o MST, um dentre tantos outros que reivindicam o que o Estado democrático e de direito deveria oferecer aos seus cidadãos, desde a moradia digna até a segurança pública.

É como se esse Estado adotasse uma ideologia progressista, expressa em suas propagandas caras e muito bem produzidas, mas que tem como contrapartida as práticas mais autoritárias que são possíveis. É como se existisse um Estado midiático e perfeito sobre uma realidade que se constitui de injustiças e de carências que são, no panorama atual. Insuperáveis.

Pedro Marcelo Galasso – cientista político, professor e escritor. E-mail: p.m.galasso@gmail.com