Colunistas
As Coreias e o prédio
publicado em 11 de maio de 2018 - Por Pedro Marcelo Galasso
A península coreana é uma das regiões mais tensas e militarizadas do globo e as origens da guerra na região tem sua origem após a 2ª Guerra Mundial, época que a península foi dividida entre as superpotências, EUA e URSS, no paralelo 38°.
Portanto, a divisão obedecia aos parâmetros da Guerra Fria e criou dois regimes – a República Democrática da Coreia, a Coreia do Norte e sua ditadura socialista, e a República da Coreia, a Coreia do Sul e seu regime democrático e capitalista, apoiado maciçamente pelos EUA que pretendia criar uma posição forte e estratégica ao lado da URSS e da China.
A guerra que durou aproximadamente três anos, 1950 a 1953, viu os EUA apoiando a Coreia do Sul enquanto a URSS e a China apoiavam a Coreia do Norte, causou a morte de 3 milhões de pessoas e acabou com a assinatura de um armistício, o Tratado de Panmunjon.
Durante décadas os regimes entrassem em dissensões e elevaram a tensão em uma região de disputas territoriais e econômicas que envolvem hoje os EUA, o Japão, a China e a Rússia, ou seja, essa herança da Guerra Fria se localiza em um ponto vital para as grandes potências globais, se somando, por exemplo, a questão entre a China e Taiwan.
Fato é que o programa nuclear da Coreia do Norte aumentou exponencialmente a tensão na região, opondo, de novo, os interesses dos EUA com relação aos interesses russos e chineses, oposição utilizada pelo governo norte-coreano como elemento de crescimento e de propaganda ideológica, além de provocar um temor na Coreia do Sul e no Japão.
É preciso lembrar que os EUA haviam colocado a Coreia do Norte como um dos países que formavam o Eixo do Mal, um conjunto de países que os estadunidenses viam como patrocinadores de ações terroristas, principalmente após o 11 de Setembro.
Por isso, a aproximação da duas Coreias é significativa e ganha ares de um provável avanço nas relações diplomáticas e na diminuição da tensão entre os dois países e, especialmente, entre as potências que os apoiam.
Enquanto, no Brasil, assistimos pasmos o desabamento do prédio na cidade de São Paulo. Desabamento que se tornou uma briga entre o governo federal e a prefeitura da cidade acerca das responsabilidades e sobre os custos do desabamento e das vítimas que ocupavam o prédio. Vítimas de uma lógica de governo, federal, estadual e municipal, que não oferece possibilidades de construção de moradias populares e não se preocupa com a situação precária na qual essas pessoas vivem.
O desabamento só tornou explícita a situação de abandono de milhares de famílias a própria sorte e que têm somente duas opções – o morar nas ruas ou a ocupação de prédios abandonados ou em situação de risco. Estranho notar que as ocupações de prédios eram realizadas pelos operários ingleses no século XVIII e são, tristemente, uma realidade comum nas grandes cidades de todos os países.
A questão parece ser a seguinte – quem ganha com as ocupações? Quem se responsabiliza por elas? E quem ajuda suas vítimas?
Pedro Marcelo Galasso – cientista político, professor e escritor. E-mail: p.m.galasso@gmail.com
