Colunistas
Assombro pelo mundo
publicado em 8 de junho de 2017 - Por Pedro Marcelo Galasso
É fato que vivemos um período nebuloso no cenário político global e que a cada dia se torna mais tenso com líderes mundiais em conflitos ou dissensos sobre questões fundamentais a todos nós, como, por exemplo, as discussões sobre o uso dos recursos do meio ambiente ou sobre uma solução plausível para os conflitos armados, como na Síria.
Estes momentos de tensão são fortes também no Brasil, nos centros urbanos e, mais uma vez, no campo.
A visita de Trump ao Vaticano com o claro descontentamento do papa Francisco I que em nenhum momento se esforçou para demonstrar simpatia pela visita, se transformou em mais um fiasco do atual presidente estadunidense que foi deixado isolado nas reuniões sobre o meio ambiente global por conta da posição suicida e irresponsável que seu governo tem sobre a preservação do meio ambiente global e do uso racional e responsável, algo improvável, dos recursos energéticos, além das discussões sobre a redução na emissão de poluentes. E isso foi somente uma parte de seus problemas. Sua visita à Arábia Saudita, cujo governo violento é aceito por conveniência pelos EUA, e sua passagem por Israel ficaram apagadas pela forma com a qual a sua primeira-dama foi destratada diante de todos. Enfim, a primeira viagem do Trump como presidente dos EUA foi desastrosa e terminou com um aperto de mão inusitado por parte de Macron, presidente da França, que declarou não ser possível fazer concessões ao presidente dos EUA.
Além disso, assistimos a triste notícia de um atentado terrorista na cidade Manchester, Inglaterra, que matou dezenas de pessoas, dentre elas crianças que assistiriam ao show de uma cantora estadunidense. Apesar das medidas severas de segurança o atentado ocorreu em uma parte na qual a segurança é difícil de ser realizada. A infeliz novidade deste atentado, algo já alertado e, tristemente, esperado é que o terrorista era um inglês, ou seja, a despeito do temor frente aos refugiados, em Manchester, o terrorista era um europeu. Sabe-se que os grupos terroristas seduzem jovens europeus via internet, mas a dimensão da atração era desconhecida ou subestimada. Para alguns, a preocupação com os descendentes de povos tidos como perigosos e com os refugiados cegou as autoridades europeias para uma ameaça que agora é interna e não mais externa. O desdobramento infeliz de tal atentado é o aumento da xenofobia, dos grupos antirrefugiados e de um sentimento de ódio aos turistas, algo que vem ganhando adeptos nos últimos anos. Em momentos de terror e de medo difuso, o diferente e sempre o responsável.
Por aqui, no Brasil, as notícias são péssimas e nos trazem pouquíssima esperança.
O governo Temer, alguns políticos importantes, legendas partidárias e ministérios atolados em denúncias que parecem não ter fim e nem tamanho. A ação violenta do governo frente as manifestações, que podem ou não serem violentas, com aparatos repressivos do Estado usando força letal, as depredações dos patrimônios públicos, por parte do governo e dos manifestantes, a falta de uma pauta clara de reivindicações e a insistência de alguns grupos políticos em salvar a própria pele definem o caos político e institucional no qual estamos nos afogando.
A chance de um acordão entre PT, PSDB e PMDB sinaliza algo que deve ser esperado – a classe corrupta brasileira prepara um barco no qual caibam todos os ratos importantes e pensa um golpe institucional e legal para que todos se safem, tal qual o dono da JBS. Neste caos, a volta das ações violentas no campo brasileiro, que mais mata no mundo, passa desapercebida e reforçam as discussões inúteis e sem nenhum fundamento sobre a vida dos trabalhadores rurais, a exploração a que muitos estão submetidos, pois se reduz a discussão aos polos MST/PT e os grandes agroexportadores brasileiros. É importante pensar o seguinte – há alguma relação entre o aumento da violência no campo e o pedido da bancada ruralista para o perdão de dívidas bilionárias em troca de apoio ao governo Temer?
Nada de novo, nem mesmo a audácia daqueles que se beneficiam com a corrupção no Brasil.
Pedro Marcelo Galasso – cientista político, professor e escritor. E-mail: p.m.galasso@gmail.com
