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Cenário sem fim
publicado em 24 de outubro de 2017 - Por Pedro Marcelo GalassoDentro dos conflitos que existem no interior das democracias modernas, o voto e os partidos políticos têm a função de expressar estes conflitos entre as diferentes classes, cabendo ao eleitor escolher o partido político com as melhores propostas e os melhores candidatos.
Entretanto, os partidos políticos nem sempre cumprem essa função, ao defender um grupo de interesses ou aos apelos de alguns setores específicos, deixando de ver o espaço público como um todo e dificultando a identificação mais precisa sobre suas propostas prejudicando assim a escolha por parte dos eleitores. Isto pode ser percebido quando nos detemos na análise dos grupos étnicos ou religiosos que apoiam determinados partidos políticos para que seus interesses sejam defendidos ou seus privilégios sejam mantidos em detrimento de outros grupos, uma característica marcante das eleições.
A lealdade regional que influencia no apoio a determinado partido político ou a um determinado candidato também deve ser considerada. Além disso, quanto maior a idade dos eleitores mais definidas são as escolhas, pois as gerações apoiam os partidos políticos segundo suas experiências mais significativas. A preocupação surge, neste caso, quando pensamos na pouca atenção que as gerações mais recentes dão à Política.
Pensando na relação entre os eleitores brasileiros e os seus votos são comuns as análises técnicas e racionais que não conseguem entender a incoerência que rege a escolha dos candidatos, expressão de uma desconfiança histórica acerca da vida pública e uma imaturidade com relação ao papel do eleitor em um sistema democrático representativo, ainda mais em uma sociedade que experimenta este quadro político a poucos mais de trinta anos.
O descompasso entre as escolhas dos candidatos e a visão que os eleitores têm sobre sua condição social e econômica, do papel do político profissional, de suas reais atribuições e limites de ação, não deve ser menosprezada quando pensamos o processo eleitoral brasileiro, pois a marca da escolha no Brasil é a incoerência, ou seja, os eleitores votam em candidatos que, normalmente, são mal vistos, mal avaliados e criticados por anos a fio.
Talvez o receio da mudança possa ser um indicativo desta incoerência já que o voto naqueles que conhecemos afasta o perigo da mudança brusca, seja ela social ou econômica, trazendo conforto para os possíveis erros políticos e uma total irresponsabilidade com relação as ações praticadas pelos políticos que são sempre eleitos.
Para nos ajudar a pensar esta relação basta analisar o teor das críticas e do descontentamento de alguns setores sociais frente ao atual governo federal e constatar que as acusações e ações mais recentes apontam o atual presidente da República como um dos responsáveis por atos de corrupção e de desrespeito contra a coisa pública brasileira que envergonham, ou deveriam envergonhar, até mesmo a quem o apoiou. A liberação de mais de dois bilhões em emendas parlamentares, a facilitação das práticas de trabalho análogas à escravidão e o perdão bilionário de dívidas de grupos que apoiam as bancadas do Congresso, expressam como a irresponsabilidade e a incoerência do voto praticado no Brasil traz malefícios e nos condena a um cenário de recessão e crise política que não parecem ter fim.
Pedro Marcelo Galasso – cientista político, professor e escritor. E-mail: p.m.galasso@gmail.com
