Colunistas
Greve dos caminhoneiros
publicado em 1 de junho de 2018 - Por Pedro Marcelo Galasso
Os últimos dias foram marcados pela manifestação dos caminhoneiros que com suas paralisações fizeram parar o sistema produtivo nacional, de forma justa e confusa ao mesmo tempo, expuseram os descontentamentos de vários setores produtivos e sociais, além de mostrarem de forma clara e vergonhosa que um país que pretende se desenvolver não pode depender de somente uma via de escoamento de insumos para a produção e consumo.
Fato é que as manifestações são legítimas, prescritas na Constituição e cumprem seus papéis ao tornarem explícita a correlação entre diferentes setores produtivos e despertar uma parcela significativa da população para as questões sociais e econômicas no que dizem respeito a sua importância e significados.
As manifestações que ocorrem nas estradas brasileiras, nas portas das refinarias e afins nos fazem pensar nas questões sobre os comportamentos coletivos brasileiros trazendo à tona uma série de reivindicação econômicas que são inexequíveis, uma pauta social de descontentamento que vai muito além das estradas e que explode nas cidades que se veem envolvidas e assistem atos de violência em, por exemplo, seus postos de combustíveis, e uma pauta política absurda e inaceitável que clama por uma intervenção militar como se essa fosse a solução mágica ou messiânica para as questões de desigualdades e de privilégios que marcam a formação do Estado brasileiro.
Quanto a esta última pauta é necessário dizer que não seria a única vez que isso ocorreu. Após o suicídio de Getúlio Vargas, na década de 50 do século XX, houve um problema sucessório típico da nossa classe política, quando Café Filho, vice-presidente na ocasião, se afastou da responsabilidade de assumir a presidência alegando problemas de saúde o que, por sua vez, indicaria a posse de Carlos Luz, então presidente da Câmara de Deputados, que foi impedido de assumir por conta do “golpe branco” do marechal Nereu Ramos que permaneceu no poder até a posse de JK. Parece ser justo dizer que a reivindicação absurda da intervenção militar é, na verdade, o pedido de um golpe branco como o citado acima e não o retorno dos moldes da Ditadura Militar de 1964.
Outro fato que chama muita atenção é o recuo do presidente Temer com relação ao uso da força física, uma prerrogativa legítima do Estado que detém o monopólio exclusivo da força física, após seu anúncio precipitado e inapropriado na última sexta-feira. Ali, de forma infantil e pouco inteligente, o presidente perdeu o pouco de apoio que ainda possuía já que a pauta confusa e difusa dos caminhoneiros seja muito próxima das pautas sociais de vários grupos que se identificam com as reivindicações apresentadas.
No entanto, a presença de partidos políticos, de políticos oportunistas e da possibilidade de locaute dos empresários levantam dúvidas e questionamentos sobre o que pretende a greve. A posição do caminhoneiro é a mesma dos empresários, dos políticos? Qual é a pauta final? Quem a definiu ou propôs? Quem aceita ou não os termos?
Felizmente, de uma coisa já sabemos de forma prévia e explícita, segundo o Ministro da Fazenda, será a sociedade civil que pagará todas essas contas. Além disso, somente após o fim das manifestações, com o passar de algumas semanas ou meses poderemos ter uma noção exata do que foi realmente o movimento. Veremos ainda como outros movimentos sociais irão se comportar e qual o destino de um governo tão fatídico e equivocado como o atual. É possível suspeitar que depois de menosprezar a greve dos caminhoneiros os governos federal e estadual vão tratar as próximas manifestações com a mesma violência utilizada em 2013, dentre outras manifestações criminosas de violência do Estado que, em muito, superam a força legítima e constitucional que o Estado pode e deve utilizar.
Pedro Marcelo Galasso – cientista político, professor e escritor. E-mail: p.m.galasso@gmail.com
