Colunistas

Longe do fundo do poço

publicado em 8 de junho de 2017 - Por Pedro Marcelo Galasso

As notícias que explodiram na mídia brasileira assustaram até mesmo quem já imaginava as diversas formas de corrupção, ativa e passiva, que marcam a engrenagem do aparato público brasileiro. Mesmo assim, a dimensão do que foi divulgado é sem precedentes, ou seja, mesmo em um país que vê com bons olhos e que aceita as práticas corruptivas, como um elemento fundamental para o bom funcionamento do Estado, as denúncias e as gravações são grandes demais para serem ignoradas ou desvirtuadas como têm pretendido alguns grupos ou canais de comunicação.
O volume de dinheiro, cujas fontes são públicas e privadas, utilizado para mover a corrupção do Estado fez o escândalo da Odebrecht, e outros tantos, parecer algo irrisório e quase infantil. O escândalo foi tão grande que os envolvidos receberam um tratamento especial por conta do perigo de vida que corriam. Muitos não concordam, mas o aparato jurídico garante tal tratamento.
Há, entretanto, um pressuposto na delação premiada que acaba com a ilusão que ela pretende criar – ela não promove a busca pela verdade e nem pretende responsabilizar ou esclarecer os fatos, mas, tão somente, tem a pretensão da fuga das possíveis penas, ou seja, o delator não pretende esclarecer nada, o que tal figura deseja é se livrar, se safar, se ver além das piores penas. Prova disso são as referências, as fotos, as gravações e os documentos que alguns delatores colhiam já pensando nas suas defesas e nas formas legais de escaparem ou diminuírem suas possíveis penas, ou seja, as práticas corruptivas já pressupunham e premeditavam os possíveis benefícios das delações premiadas.
Termo apropriado, pois os seus favorecidos são premiados com ações que em nada mudam nossa estrutura política ou social, que em nada beneficiam as pessoas prejudicadas, a décadas, por ações corruptas e toleradas, bem como defendidas. De fato, o prêmio é um ato vexatório, mais um dentre tantos, de um país que pratica formas injustas e ilegítimas do que alguns chamam de Justiça, mas que somente aumentam a incredulidade e o descaso com as ações legais.
Se tal pressuposto não corrompe a prática, com a ideia da verdade sempre distante, o que é corrupção? Como dizer ou afirmar que ela esta diminuindo se o instrumento é tão corrupto quando os atos que pretende julgar, investigar ou premiar?
Não é razoável confiar em uma prática que pretende livrar as pessoas de suas ações e que despreza a ideia ou a pretensão da verdade dos fatos e das punições justas, distantes das penas de morte ou das prisões para todo o sempre, estes discursos perigosos e absurdos que só fazem aumentar o clamor pela Justiça a qualquer preço, desde que violenta.
A Justiça não pode ser vista como uma vingança, mas sim como um ato legal e legítimo. Utópico? Não, o que é o justo e correto não pode ser visto como algo distante. Inocente? Não, com normas claras e objetivas não há o risco da inocência e da injustiça.
Nada mais distante que uma mudança, nada mais distante que a crença infantil e irresponsável que uma investigação, um novo impeachment ou que as denúncias, avaliadas e julgadas por aqueles denunciados, irão transformar a sociedade brasileira. A crença nas soluções magicas ou messiânicas são fortes por aqui e nos impedem de pensarmos o atual momento com a gravidade e a seriedade que ele exige.

Pedro Marcelo Galasso – cientista político, professor e escritor. E-mail: p.m.galasso@gmail.com