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Movimentos neonazistas – parte I

publicado em 4 de setembro de 2017 - Por Pedro Marcelo Galasso

A pensadora Hannah Arendt, em seu livro As origens do Totalitarismo, nos indica como podemos pensar no fenômeno antissemita e no nazismo, bem como na aberração histórica chamada de neonazismo.

Duas guerras mundiais em uma geração, separadas por uma série ininterrupta de guerras locais e revoluções, seguidas de nenhum tratado de paz para os vencidos e de nenhuma trégua para os vencedores, levaram à antevisão de uma terceira guerra mundial entre as duas potências que ainda restavam. O momento de expectativa é como a calma que sobrevém quando não há mais esperança. Já não ansiamos por uma eventual restauração da antiga ordem do mundo com todas as suas tradições, nem pela reintegração das massas, arremessadas ao caos produzido pela violência das guerras e revoluções e pela progressiva decadência que sobrou. Nas mais diversas condições e nas circunstâncias mais diferentes, contemplamos apenas a revolução dos fenômenos – entre eles o que resulta no problema dos refugiados, gente destituída de lar em número sem precedentes, gente desprovida de raízes em intensidade inaudita.
Aí estão as pistas que Hannah Arendt nos apresenta e é a partir delas que vamos pensar no antissemitismo, no nazismo e no neonazismo para tentarmos entender os atuais movimentos de massa e de direita que ocorrem nos países europeus, principalmente na Europa Ocidental, os quais marcam, particularmente, as comemorações do Dia Internacional do Trabalho, o 1º de Maio, e, portanto, devemos recuperar o que pregava a ideologia doutrinária nazista.
O pensamento nazista surge no contexto do Período Entre Guerras, quando a Alemanha é obrigada a assinar um tratado que moralmente a humilha, o Tratado de Versalhes, em que ficou estabelecido que as maiores consequências e perdas da 1a Guerra Mundial ficariam a cargo da própria Alemanha.
Tal imposição mexeu com o orgulho germânico que é um dos caracteres mais importantes da formação do Estado Nacional alemão habilmente utilizado por Bismarck e que permanece até hoje em suas formações culturais.
Nesse contexto pós-Versalhes, surge a figura de Adolf Hitler, líder do até então inexpressivo Partido Nazista, ou Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores da Alemanha, que terá uma ascensão meteórica na política alemã ao resgatar o orgulho germânico como elemento de motivação política e social, o qual afirmava ser capaz reconstruir a Grande Alemanha fazendo com os países que lhe impuseram o vergonhoso Tratado de Versalhes se curvassem frente à força do Reich alemão. Para isso apontou-se um inimigo interno definido, o povo judeu, acusando de contaminar o espírito germânico e trazer a impureza e a fraqueza externa para a Alemanha, desestruturando-a econômica e politicamente. Como disseram Adorno e Horkheimer: “O antissemitismo burguês tem um fundamento especificamente econômico: o disfarce da dominação na produção”, Dialética do Esclarecimento.
Assim, deve ser possível, por exemplo, encarar e compreender o fato, chocante decerto, de que fenômenos tão insignificantes e desprovidos de importância na política mundial como a questão judaica e o antissemitismo se transformaram em agente catalisador, primeiro, do movimento nazista; segundo, de uma guerra mundial; e, finalmente, da construção dos centros fabris de morte em massa (os campos de extermínio). Também há de ser possível compreender a grotesca disparidade entre a causa e o efeito que compunham a essência do imperialismo, quando dificuldades econômicas levaram, em poucas décadas, à profunda transformação das condições políticas no mundo inteiro; (…). p 12.
A ideologia alemã pregava algumas ideias como a superioridade da raça ariana e a crença fascista na unidade social, expressa em um único partido que contemplaria todos os setores e desejos nacionais.
Para a execução de seu plano político Hitler faz renascer a ideia da construção do Terceiro Reich alemão recuperando símbolos nacionais, como a Lança de São Guilherme, ideais de superioridade deturpados, como ocorreu na leitura nazista do super-homem de Nietzsche, e as teorias antissemitas dirigidas, principalmente, contra os judeus, pois já existia um sentimento antissemita na Europa Ocidental, e por aquele ser o segmento mais rico da Alemanha. Ao canalizar o ódio do alemão médio contra os judeus, Hitler legitimou sua ação contra o povo que teria desgraçado o orgulho e a glória germânica, o que permitiu e legitimou a apropriação dos bens acumulados pelos judeus, os quais foram revertidos para a reafirmação do Estado alemão.

Pedro Marcelo Galasso – cientista político, professor e escritor. E-mail: p.m.galasso@gmail.com