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Movimentos neonazistas – parte II

publicado em 4 de setembro de 2017 - Por Pedro Marcelo Galasso

Isso é fácil de ser entendido porque na medida em que o Estado alemão procura se reerguer, sem poder contar com ajuda de financiamentos internacionais, que poderiam promover seu desenvolvimento.

Ideia expressamente perigosa para a França e para a Inglaterra. Em decorrência disso, a Alemanha procura outra forma de angariar capital se apossando dos bens disponíveis em seu próprio país, neste caso, os bens dos judeus. Além disso, os nazistas conseguiram transformar o antigo antissemitismo, aquele presente no século XIX, pautado no ódio religioso ao judeu em algo novo colocando o antissemitismo como algo normal, corriqueiro e socialmente necessário.
Percebe-se que a Teoria Antissemita oculta motivações econômicas responsáveis pelo extermínio do povo judeu durante a 2a Guerra Mundial, ocorrido nos chamados campos de extermínio, onde a racionalidade fordista das grandes indústrias foi utilizada para aniquilar pessoas, em um evento conhecido como o Holocausto.
Em 1945, o Partido Nazista foi dissolvido e proibido em todo mundo; no entanto, mascarou-se nos partidos de ultradireita e começou a se manifestar mais abertamente a partir de 1992, com manifestações públicas com um grande contingente de integrantes, o que passou a preocupar a opinião pública em todo mundo, levando o povo judeu a se levantar contra tais movimentos e organizações de ideologia nazista.
Aqui podemos traçar um paralelo com outro ponto do texto de Hannah Arendt:
Ambos os fenômenos – o antissemitismo e o totalitarismo – mal haviam sido notados pelos homens cultos, porque pertenciam à corrente subterrânea da história europeia, onde, longe da luz do público e da atenção dos homens esclarecidos, puderam adquirir virulência inteiramente inesperada.
Com o aumento do desemprego em todo mundo, os neonazistas normalmente culpam os estrangeiros que se estabelecem nos países europeus para buscarem trabalho sem se darem conta de que as condições de trabalho e as mudanças do próprio capitalismo são as grandes responsáveis pelo seu desemprego.
No caso alemão, as principais vítimas são os turcos, africanos e latino-americanos. No entanto, o alemão de classe média que promove tal tipo de acusação se esquece de que este grupo específico de estrangeiros exerce atividades distantes daquelas realizadas por um alemão médio. Um estrangeiro trabalha normalmente nos chamados subempregos como aqueles realizados na construção civil, em minas de carvão, como lavadores de pratos, na prostituição, tráfico de drogas e não nas atividades mais bem remuneradas ou especializadas, ocupadas habitualmente por um europeu ou mesmo um norte-americano de classe média.
Outro aspecto a ser considerado é o crescimento dos movimentos políticos de direita e ultradireita que, muitas vezes, se apropriam das teorias nazistas para afirmar planos de governo que privilegiam as camadas médias de seus países. Um exemplo desta postura política foram as manifestações de caráter abertamente neonazista que varreram toda a Alemanha no 1o de maio de 2001 e que se repetiram nos anos seguintes.
Em uma época que aprendeu a utilizar o terror como mecanismo de política de Estado, em uma época de mudanças intensas, constantes e incompreendidas, fica a seguinte pergunta: será a corrente que originou o antissemitismo nazista não deixou em seu legado uma corrente com os mesmos princípios, mas com alvos mais diversificados?
Novamente a indicação é de Hannah Arendt:
A diferença fundamental entre as ditaduras e as tiranias do passado está no uso do terror como meio de extermínio e amedrontamento dos oponentes, mas como instrumento corriqueiro para governar as massas perfeitamente obedientes. O terror, como conhecemos hoje, ataca sem provocação preliminar, e suas vítimas são inocentes até mesmo do ponto de vista do perseguidor. (…); em nosso contexto, tratamos apenas da arbitrariedade com que as vítimas podem ser escolhidas, e para isso é decisivo que sejam objetivamente inocentes, que sejam selecionadas sem que se atente para o que possam ou não ter feito.

Pedro Marcelo Galasso – cientista político, professor e escritor. E-mail: p.m.galasso@gmail.com