Colunistas

O alimento do Ódio

publicado em 24 de outubro de 2017 - Por Pedro Marcelo Galasso

Atentado em Las Vegas. Discursos de Trump. Fortalecimento da extrema-direita na Europa. Defensores de políticos violentos no Brasil. Pobreza em escala global. Falta de aceitação. Abusos da força e recrudescimento violência.


Os pontos acima podem ser listados como razoes ou justificativas para o aumento assombroso da violência em todo o mundo, ou seja, a violência não é exclusividade de um país ou de um grupo, na verdade, ela se apresenta como o panorama para a resoluções de problemas que, paradoxalmente, são criados pela própria violência.

Neste contexto, o atentado em Las Vegas é um ato cego, disforme, irresponsável e inaceitável. As balas perdidas, pois não tinham nomes e nem alvos definidos, expressam o ódio coletivo e cego, um ódio por tudo e por todos. Um ato atroz, sem razão, desumano e que aumenta o turbilhão de dúvidas que pairam sobre nossas cabeças, que ensandecem e que torna as tentativas de explicações em meras conjunturas e especulações.

Como o ato não tem razão de ser, resta pensar na sua execução. Ato premeditado e planejado cuidadosamente, o que aumenta sua perversão e seu horror, se resumiu ao atirar a esmo contra uma multidão que assistia um show musical em um hotel. Aparentemente, nada de ruim nesta escala poderia ocorrer já que a demência do ato quebrou todas as possibilidades de defesa e de prevenção.

Para muitos, o caráter quase leviano das legislações sobre posso e porte de armas, nos EUA, é o fator responsável pelo ocorrido. Para outros, a insanidade do ato não pode ser atribuída a legislação citada. É justo, portanto, pensar que o atentado é parte da discussão sobre o porte a posse das armas sem que posso se resumir a ela.

Fato é que desde o final da Guerra Fria, na década de 1990, os conflitos ganharam uma nova dimensão, mais próximas das práticas terroristas realizadas após a Revolução Islâmica do Irã, em 1979. O que isto significa?

Significa que os conflitos se tornaram menores, mais pontuais, com causas cada vez mais confusas e com um grau de violência sem precedentes no que tange a esfera coletiva. O Horror dos atentados que seguem esta lógica é simples – procurar pânico generalizado, inutilizar as formas tradicionais de controle e de combate aos atentados e não ter alvos particulares, no máximo grupos que se pretendem ferir ou exterminar.

Há, ainda, um caráter messiânico às avessas quando estas figuras são exaltadas e reverenciadas, tidas como heroínas de causas sem causas, nas quais a violência por si só é o que se busca e se espera. Uma violência cega que atira, fere e mata a esmo, sem razão, sem motivo. E o que parece sua fraqueza, sua (i)razão, se transforma na sua maior força na medida que ela se encaixa em qualquer ideologia perversa e, por isso, pode justificar e legitimar tudo a despeito de ser injustificável e ilegítima.

Discursos como os do presidente dos EUA somente inflamam e fazem alastrar o Ódio, alimenta dissensões e conflitos, dentro e fora dos EUA, com sua postura irresponsável e perigosa ao tratar de questões de interesse global, como a delicada questão da Coreia do Norte. Seus apelos e suas palavras de baixo calão nos discursos oficiais ofendem a muitas pessoas, mas incentivam outras a praticarem atos extremados e violentos, desumanos e inaceitáveis, e travestidos de ideologias, de defesa de (des)valores excludentes nos EUA e em todo o mundo.

Pedro Marcelo Galasso – cientista político, professor e escritor. E-mail: p.m.galasso@gmail.com