Colunistas
O ódio e a Política
publicado em 22 de junho de 2017 - Por Pedro Marcelo Galasso
Os anos que antecedem as eleições presidenciais são sempre abertos aos mais bizarros e desconexos argumentos para as escolhas de possíveis candidatos ao cargo maior da nossa tão desrespeitada República e, após os anos de 2016 e 2107, o calor das discussões e dos absurdos se torna maior ainda.
No entanto, dentre os nomes absurdos e vergonhosos defendidos, como Jair Bolsonaro, um deputado federal cuja inutilidade só não é maior que o ódio e o preconceito apregoado por ele, não vemos ninguém questionando as propostas inconstitucionais e até mesmo criminosas de inúmeros candidatos, alguns que na ânsia por votos, imitam a figura controversa citada acima, ou seja, a defesa do ódio, da violência e da violação das leis ganham ares de plataformas políticas que podem orientar futuros, mas improváveis, governos. A História eleitoral brasileira explica que estes nomes servem como distrações e comprometem o diálogo sério sobre o país que pretendemos construir, eles atrapalham e confundem, induzindo quem não se preocupa com a Política e prefere as mensagens de ódio de fácil compreensão e defesa.
Basta lembrar do candidato Eneias, conhecido por sua fala rápida e voraz devido aos dez segundos de propaganda eleitoral gratuita determinados pela Justiça eleitoral, e que surgiu com uma plataforma de governo controversa e com um nacionalismo confuso e sempre apontado para a presidência do Brasil, mas que nem de longe se tornava alguém a imaginar tal cargo. Conseguiu, na verdade, se eleger deputado federal e, como de costume, pouco fez ao longo de seu mandato.
E a questão permanece – por que os discursos violentos, que pregam o ódio ou as soluções cuja base é o ódio, não são criticados com a veemência que merecem? Por que plataformas políticas, que não são plataformas e sim discursos irracionais e sem sentido, se constroem sobre ideias tão absurdas?
Como não existem os questionamentos, podemos afirmar que alguns grupos são beneficiados com isso, alguns partidos políticos e suas espúrias coligações tiram proveito destes nomes, especialmente nos segundos turnos, para cooptarem os eleitores destes inúteis candidatos que não defendem nada de concreto, mas que, de forma inaceitável, cativam grupos de eleitores. É fato que a História não é uma ciência exata e que as previsões são irresponsáveis, mas crer na eleição de figuras como as citadas e descritas sendo eleitas para cargos importantes é aterrador e deve servir de alerta a todos.
Tão problemático quanto a defesa destas figuras, é a oposição que usa discursos de ódio para criticar o ódio defendido pelo outro grupo, ou seja, o ódio é utilizado nos dois sentidos, em direções opostas e provocam sempre o mesmo efeito, a perda da capacidade de uma discussão coerente sobre o país que pretendemos construir.
Isso sem levar em conta que não há e não haverá uma renovação dos nossos quadros políticos para as próximas eleições e por próximas eleições deve-se entender por mais três ou quatro eleições com este quadro político escancarado pelos escândalos recentes e que até lá promoveram outros tantos, ou seja, votar de novo, em algo novo e que permanece velho e com o pior de nossas práticas políticas. Cenário ruim, mas real e com o qual temos a obrigação de nos preocupar.
Em uma democracia a participação política é obrigatória, pois a liberdade de escolhas ocorre no seu interior e não aquém dele. A participação na vida pública, com representação direta ou indireta, é uma responsabilidade e não algo que pertence a um ou outro grupo político. A sociedade civil tem um papel fundamental na construção da democracia, mas permanece distante de suas responsabilidades como instituição histórica e política.
Pedro Marcelo Galasso – cientista político, professor e escritor. E-mail: p.m.galasso@gmail.com
