Colunistas
O ódio
publicado em 4 de setembro de 2017 - Por Pedro Marcelo Galasso
Existem elementos históricos e sociais que podem nos fazer entender a razão de tamanha violência que contamina as mais variadas sociedades e momentos cotidianos. É importante aqui lembrar que as explicações nem de longe devem servir como justificativas por serem somente maneiras de explicar o que ocorre.
Dentre inúmeros elementos explicativos, uma regra comum e comprovada é a lógica dos extremos, ou seja, os elementos que motivam as ações violentas estão em lados opostos como a extrema pobreza e a opulência vazia, entre povos menos desenvolvidos e entre os considerados mais desenvolvidos, entre as pessoas com muita fé e aquelas que são descrentes. A oposição é um fator complicador já que extremistas se caracterizam pela incapacidade de verem além de suas opiniões por mais estúpidas que elas sejam e por mais atrozes que elas sejam.
O ato ocorrido nos EUA só explicita uma lógica que se dissemina a tempos em todo o mundo, mas que não encontra as reações esperadas e necessárias. A manifestação antissemita, homofóbica e racista encontrou um terreno fértil e uma incomum aceitação para ser realizada com tamanha contundência e proporção em um país cujo histórico de ações deste tipo é comum e realizado a muito tempo, como nos aponta a História. Vale lembrar da luta pelos direitos civis dos cidadãos negros estadunidenses nas décadas de 50, 60 e 70 do século XX, após mais de cem anos da abolição da escravidão naquele país.
Entretanto, é perigoso dizer que a manifestação é um fenômeno estadunidense. Não, ela é resultado de um recrudescimento de violência que assistimos passivamente em todo mundo. O elemento violência assusta e intimida, além de criar o receio de ações contrárias.
A violência explicitada nos EUA é resultado de uma dinâmica global que nos faz ver o Outro como inimigo, como alguém a ser combatido, temido e atacado antes que ele o faça. Criamos um cenário de guerra de todos contra todos, parafraseando Hobbes, e vendo a sociedade como um local de guerra, de violência, de atrocidades sem salvação e, por isso, a única saída é o aumento da própria violência, travestidas em outros nomes ou justificativas, mas sempre a mesma.
Há um caráter sedutor na violência atual, fruto de uma sociedade machista que transforma todos nós em meros predadores e competidores, nos afastando do bom senso. E os exemplos sobre tal absurdo são fáceis de serem listados.
O pedido por governos ditatoriais no Brasil, o aumento da força física das instituições da segurança pública, o clamor pela pena de morte, a banalização da violência racial e homofóbica, além da violência relacionada pelas questões de gênero são alguns parcos exemplos vistos aqui, em nosso país, o que não nos distancia do que foi visto nos EUA já que algumas das propostas absurdas daqui são idênticas a algumas das propostas de lá. Muitos veem com bons olhos algumas das ações do Estado Islâmico no Oriente Médio condenando não a violência contra os homossexuais ou as execuções públicas e nem, para o espanto das pessoas de bom senso, a violência sexual contra crianças, mas colocam como ressalva o fato do movimento ser islâmico, ou seja, a questão que mais incomoda é a religiosa o que nos faz pensar que se a religião fosse outra, talvez a que domina o mundo ocidental, tal ressalva desapareceria.
É perigoso ver a manifestação nos EUA como um fato isolado, pois ela não é. É sim, resultado do aumento insano da violência em um mundo cada vez mais cindido e que assiste a tudo inerte. Nem mesmo as críticas ao presidente Trump devem ser isoladas, afinal, não pedem alguns ignorantes políticos, a eleição de uma figura próxima a ele, aqui no Brasil?
Pedro Marcelo Galasso – cientista político, professor e escritor. E-mail: p.m.galasso@gmail.com
