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O que era esperado
publicado em 4 de setembro de 2017 - Por Pedro Marcelo Galasso
O perdão concedido ao senador Aécio Neves era mais que esperado e se concretizou ainda que sob o véu da Honestidade e da Decência, características que não existem, de fato, no Conselho de Ética cuja denominação é a mais equivocada possível.
Um conselho que toma tal atitude e desconsidera todas as provas contra tal figura política, que quase foi presidente do Brasil e apoiado por uma camada de ignorantes políticos que usavam, com orgulho, camisetas com a frase “A culpa não é minha, eu votei no Aécio” sem notarem que eram tão ignorantes quanto seus pares petistas, não pode e nem deve ser denominado como ético.
No entanto, o que ocorreu era previsível, tão previsível que todo o jogo de cena, como a depressão e o abatimento do senador, a visita solidária de membros de seu partido político, o PSDB, só mascaravam as articulações políticas e a compra de votos contrários à cassação.
Alguém pode imaginar o que foi prometido aos membros do Conselho de Ética? Alguém pode calcular a sangria dos cofres públicos pela compra de apoio? Alguém pode quantificar a perda da credibilidade política no Brasil, caso ela ainda existisse?
Com o resultado de tal ação irresponsável, execrável e inaceitável, o que nos resta?
Esperar uma nova eleição em 2018, com as mesmas figuras políticas, os mesmos discursos e práticas, apresentadas como algo novo e como o início de uma nova era? Rever candidatos que sangram o país e que condenam milhões de pessoas à fome e à carência dizendo, mentirosamente, que algo diferente e mais justo será criado?
De fato, não há horizonte de mudança. Deveria haver um sentimento de desespero e de vergonha, pois é isto o que nos resta. Para piorar tudo isso, figuras inaceitáveis, como o deputado Jair Bolsonaro, uma das maiores provas da nossa ignorância política, ou algum messias político surgirão nesta empreitada para confundir ainda mais o aterrador cenário político brasileiro.
A culpa é da omissão da sociedade civil que se esconde por detrás de um discurso de incredulidade e de não aceitação da ordem política corrupta, mas pratica atos tão corruptos quanto os atos dos políticos em sua esfera diária de ações. A culpa é da sociedade civil que não se preocupa com o Bem Público e que despreza práticas de inclusão do Estado que deveriam amenizar a carência e a fome de milhões de pessoas, pois se sente lesada ou roubada. A culpa é da sociedade civil que culpa a Ditadura Militar por sua “deseducação” política, mas se esquece que esta mesma Ditadura acabou a mais de três décadas. A culpa é da sociedade civil que clama pelo retorno da mesma Ditadura que a deseducou.
Seria irresponsável e mentiroso dizer que há, a curto prazo, alguma solução ou possibilidade de mudança. É imperativo que entendamos o seguinte – não há luz no fim do túnel já que estamos cavando um buraco, cujo fundo parece cada vez mais distante.
E se pensamos nas soluções propostas, e em seus autores, devemos esperar para os próximos meses a concretização do acordão PT-PMDB-PSDB que espera salvar todos os acusados e deixar que suas forças políticas, corruptas e corruptoras, se degladiem e nos condenem ainda mais no próximo processo eleitoral.
O fim do espetáculo da operação Lava Jato, o perdão, quase religioso, ao senador Aécio Neves e o silêncio do PT são as provas cabais e incontestes do nosso cenário político. Dizem que cada povo tem os governantes que merece, mais uma vez, não creio que mereçamos tão pouco.
Pedro Marcelo Galasso – cientista político, professor e escritor. E-mail: p.m.galasso@gmail.com
