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País justo?

publicado em 24 de outubro de 2017 - Por Pedro Marcelo Galasso

Na última semana, o caráter falso do atual governo atingiu um grau sem precedentes de cinismo e escancarou uma prática política antiga e notória – a compra de votos para o impedimento ou arquivamento de denúncias contra políticos, neste caso, contra o próprio presidente do Brasil.


É um fato inegável que o desastre conduzido pelo atual presidente já era esperado e que as razões para o impeachment da péssima presidente Dilma não eram políticas e nem justas, mas sim o conjunto de interesses de grupos políticos e econômicos que viram a possibilidade de favorecimento e de ganhos imensos. Alguém pode perguntar – o mesmo não ocorria no governo Dilma? E a reposta é sim, ao que tudo indica, já ocorria. Então, por qual razão ocorreu o impeachment? E a resposta tem a ver com a velocidade dos ganhos.

Sabemos que o governo Dilma caminhava na mesma direção suja e corrupta só que fazia isso com passos mais lentos, talvez tentando manter uma aparência de honestidade. Entretanto, os passos lentos significam, em uma economia capitalista, a perda de ganhos vultuosos e, por isso, a necessidade de mudança no governo.

O pior é que as instituições que deveriam resolver tais questões de corrupção estão atoladas e claramente envolvidas, ou seja, a ideia de Justiça foi corrompida por interesses de grupos políticos e econômicos. As decisões do STF são vexatórias e incoerentes, as suas discussões tratam de nada, aparentando uma preocupação que não passa de suas salas. Além disso, a menção de membros de tão nobre Casa tem se tornado recorrente, o que aumenta as especulações sobre as decisões aí tomadas.

O que falar, então, sobre o vergonhoso e corrompido Congresso Nacional?

Duas casas, o Senado e a Câmara de Deputados, que são conhecidas por sua ineficiência, altos gastos, no montante de 7 bilhões de reais por ano, com um número inaceitável de parlamentares citados em casos de corrupção, alguns cujas participações são mais que provadas, que destilam o veneno de suas mentiras em entrevistas e pronunciamentos que ferem o bom senso, negando conversas e filmagens de forma descarada, marcados por serem os políticos mais corruptos e ineficientes do mundo, segundo as avaliações de organismos internacionais de pesquisa, e que, nesta semana, aumentam suas ações perversas ao venderem seus votos para o arquivamento de denúncias contra seus pares em função da possibilidade de salvarem seus nomes e mandatos para se perpetuarem na roda quase eterna de atos corruptos e corruptivos e que condenam milhões de brasileiros à morte e à pobreza, sem que sejam vistos como criminosos já que há uma perversa aceitação da corrupção como algo que é inerente a nossa vida pública, na verdade, uma das maiores mentiras alimentadas no Brasil.

País justo? Um país que condena milhões de pessoas em nome de alguns grupos não é um país justo.

País justo? Um país que destina verbas de bilhões para compra de votos de congressistas para evitar a condenação de poucos políticos enquanto milhões de pessoas passam por carências que nos envergonham não é um país justo.

Triste é constatar e poder afirmar que nada de novo irá ocorrer nos próximos anos, ou seja, nossa classe política, corrupta e injusta, será a mesma por vários anos, nossas instituições continuarão injustas e nossas leis interpretadas segundo a vontade e os interesses particulares de pessoas que deveriam evitar tal situação.

Desespero? Não, não é hora de desespero, pois muitas pessoas dependem da conscientização e da mobilização de quem não suporta mais tal situação e que pretendem construir um país mais justo e honesto, tal qual ele deve ser. A questão é que caminho seguir.

Pedro Marcelo Galasso – cientista político, professor e escritor. E-mail: p.m.galasso@gmail.com