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Pluralismo: das tensões e conflitos à unidade e paz
publicado em 15 de agosto de 2020 - Por Antônio Carlos de AlmeidaNo que diz respeito à coexistência de posições diferentes no âmbito de uma mesma comunidade, a história, desde os primórdios do Cristianismo, é extremamente rica de episódios. Cada um dos 4 Evangelhos tem ênfase específica: Mateus escreveu preocupando-se com os judeus, e por isso faz tantas referências às profecias do Antigo Testamento, as quais Jesus cumpriu.
Marcos apresenta Jesus Cristo como servo e Filho de Deus, recontando seu ministério e ensinamentos em uma biografia linear básica. Lucas era um gentio que creu em Jesus Cristo: seu propósito ao escrever um relato acerca da vida, da morte e da ressurreição de Jesus Cristo era tornar a mensagem de salvação compreensível para os que eram alheios à fé e à cultura dos judeus. Por sua vez, João foca no significado daquilo que historicamente Jesus viveu em sua trajetória terrena para apresentá-lo como Filho de Deus, propor a vida eterna e anunciar o Espírito Santo, que possibilitam a vitória da luz sobre as trevas.
Apesar de passar a vida fazendo o bem, como sinal do amor de Deus, o próprio Jesus não escapou dos conflitos de sua época. Teve vários confrontos com os fariseus. Acolhendo todo tipo de necessitado que ia ao seu encontro, foi respeitoso diante do Templo, centro tradicional, conservador e pomposo do Judaísmo daquela época. Foi acusado de rebelião popular junto ao Império Romano, o que lhe causou a condenação de morte na cruz. No início da Igreja, Pedro encarnava a unidade dos fiéis em Roma; por sua vez, Paulo, recém-convertido, corria o mundo daquela época para pregar o Evangelho a pessoas de todas as nações. Havia diferenças entre ambos, mas serviam o mesmo Senhor e construíam a mesma Igreja.
Isso chegou até nós. No entanto, enganam-se aqueles que falam que a Igreja Católica está dividida entre tradicionalistas de direita e progressistas de esquerda, que a CNBB foi durante muitos anos progressista e que agora está sendo dominada por conservadores. Cada bispo, em sua diocese, tem ampla autonomia, em obediência ao Papa. A CNBB não tem autoridade direta sobre cada bispo, é uma associação para reflexão e ação conjunta diante de brasileiros dos mais variados quadrantes do país e de todas as correntes de pensamento.
Sobre esse pluralismo, diversidade e, inclusive, conflitos e confrontos, assim se manifesta Dom Julio Endi Akamine, Bispo de Sorocaba: “É verdade que o pluralismo provoca no episcopado brasileiro tensões e também conflitos. Tive a oportunidade de participar de sessões da Assembleia da CNBB em que o debate foi cerrado, a discussão tensa e o diálogo muito difícil.
Graças a Deus, a CNBB é tão plural e diversificada! Dessa forma ela é obrigada — quase condenada — a buscar no diálogo as ações mais acertadas e a se empenhar na leitura dos sinais da ação de Deus na nossa história tão complicada quanto confusa. Posso testemunhar que, mesmo expressando posições diferentes, eu e todos os que fazem seus pronunciamentos somos acolhidos com respeito e com verdade”.
Essa capacidade de respeitar as diferenças, debater e dialogar na busca de soluções duradouras e essa arte de viver em unidade não obstante diferenças de visão de mundo e multiplicidade de ações são exemplos importantes na atual conjuntura de tantos confrontos.
Faleceu no último sábado, aos 92 anos de idade, o Bispo Dom Pedro Casaldáliga, da Prelazia de São Félix do Araguaia. Participou da criação da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), enfrentou fazendeiros e grileiros, esteve fortemente engajado nas lutas pela democratização do país, foi ameaçado de morte algumas vezes.
Franzino de corpo, normalmente despojado inclusive das vestes típicas de bispo, vivia humildemente numa casa simples e acolhedora, onde orava piedosamente e escrevia suas poesias. Estive com ele apenas uma vez, em 1985. Sabendo que minha irmã sofria muito com um câncer em fase terminal, disse-me algo, tirou do bolso seu terço e me deu para que levasse para ela.
Não há conflito entre corpo e espírito, entre orar e trabalhar, entre justiça e amor, entre espiritual e mundano, entre religião e política. Essas coisas se articulam e se complementam. Precisam ser alimentadas. Agostinho de Tagaste já dizia no distante século IV: “A esperança tem duas filhas lindas, a indignação e a coragem; a indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las”.





