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Vivendo com pensadores
publicado em 15 de agosto de 2020 - Por Pastor Jessé“Inquieto está o nosso coração”, declarou Agostinho no séc. IV em seu livro “Confissões”. Ao fazer essa constatação, ele não se referia a uma fase ou momento. Ele se referia à condição constante e comum a todo ser humano.
Agostinho entendia do assunto. Era um homem arguto, catedrático e dado à reflexão filosófica, tendo sido seguidor tanto do Maniqueísmo como do Platonismo. Também foi, na juventude, um libertino. Saiu para gozar a vida do modo mundano. Depois, passou por um quebrantamento e conversão a Cristo. Tendo resolvido a inquietação do seu coração, Agostinho se torna um filósofo e teólogo hábil. E olhando a vida em retrospectiva, notou a perene inquietação humana.
A questão basilar é explicar a origem dessa inquietação. A contribuição de outro pensador esclarece que há um “infinito abismo” dentro do ser humano. Quem fez esse diagnóstico foi Blaise Pascal. Vivendo no séc. XVII, Pascal foi expoente na matemática, filósofo e inventor. Educado na fé cristã, Pascal se afasta dela na juventude. Tempos depois ele teve uma profunda experiência espiritual, se convertendo à fé cristã de forma marcante. Descrevia Pascal o encontro dele com Deus como “fogo”.
Posterior à sua conversão, no livro “Pensamentos” Pascal explicou esse “infinito abismo”. O abismo vem do fato “que houve uma vez no homem uma verdadeira felicidade da qual agora resta a ele apenas a marca e o traço vazio, que ele em vão tenta preencher…”. E Pascal completou afirmando que o preenchimento desse vazio não é possível com a realidade mundana.
Agostinho afirmou que o ser humano é marcado pela mortalidade, fracasso moral e soberba. Considerando desse quadro humano, Agostinho declarou diante de Deus: “Fizeste-nos para Ti e inquieto está nosso coração, enquanto não repousa em Ti”. À parte de Deus, o ser humano permanece perturbado. Séculos depois de Agostinho, Pascal declarou que “o infinito abismo só pode ser preenchido por um objeto infinito e imutável, isto é, somente pelo próprio Deus.”
Há um desejo humano, comum a todos, por uma satisfação final e plena. “…eu encontro em mim um desejo que nenhuma experiência desse mundo possa satisfazer…”, concluiu C. S. Lewis. Tendo sido criado num ambiente cristão, na adolescência Lewis se tornou um ateu convicto. Depois assumiu o posto de professor das renomadas universidades Oxford e Cambridge, na Inglaterra, vindo a falecer em 1963. Mas, quando na carreira acadêmica de sucesso,Lewis se converteu à fé cristã, depois de muito resistir na incredulidade. Como cristão, escreveu diversos livros que refletem o pensador perspicaz que ele era.
No livro “Cristianismo Puro e Simples”, Lewis tratou desse desejo que nada neste mundo satisfaz. Ele começa estabelecendo o fato que, podemos conseguir, ou não, satisfazer nossos desejos, mas todos os desejos que temos têm o potencial de serem atendidos em alguma forma na realidade deste mundo. Entretanto, se há um desejo que o mundo não pode satisfazer, isso reduz o mundo, e a vida humana, a uma farsa. Então, ponderou Lewis, isso deveria alertar que, o ser humano tendo esse desejo mais profundo na alma, que nada satisfaz, ele deve ter sido feito para outro mundo.
Avançando na reflexão, Lewis concluiu que “os prazeres terrenos não têm o propósito de satisfazer o ser humano, mas somente de despertá-lo, de sugerir a coisa real”. Por isso, advertiu Lewis, se o ser humano deve desfrutar com gratidão as realizações terrenas, ele não pode se equivocar confundindo o terreno com outra realidade. As bênçãos das realizações terrenas “não passam de um tipo de cópia, ou eco…”. Com elas apenas, resta a inquietação e o infinito abismo, já advertiam Agostinho e Pascal.
Como C. S. Lewis disse, o desejo maior da alma revela que “fui feito para outro mundo”. O ser humano necessita desesperadamente das palavras de Jesus Cristo: “Não se perturbe o coração de vocês. Creiam em Deus; creiam também em mim. Na casa de meu Pai há muitos aposentos; se não fosse assim, eu lhes teria dito. Vou preparar-lhes lugar… Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim. Se vocês realmente me conhecessem, conheceriam também o meu Pai. Já agora vocês o conhecem e o têm visto” (Bíblia, João 14:1-6).





