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Do baú
publicado em 1 de novembro de 2017 - Por Shel Almeida
Antiquários guardam história, quem procura antiguidade quer exclusividade
Hoje se tornou comum a reutilização de itens, seja reformando-os, seja repassando para alguém aquilo que não lhe agrada mais. Roupas, móveis, eletrônicos, utensílios de casa, não importa. Por mais que seja algo antigo, ou mesmo ultrapassado para alguns gostos pessoais, sempre é possível encontrar um novo uso ou um novo dono para determinado objeto. Em uma época em que quase nada é feito para durar, ou porque é um produto frágil, como alguns móveis ou acessórios, ou porque a tecnologia avança ano a ano, como celulares e computadores, o consumo é o que determina o prazo de validade e de uso dos itens que nos acompanham no dia a dia.
No entanto, há um movimento que tenta repensar essa maneira de consumir. Primeiro, por questões ecológicas, já que quanto mais consumo, mais lixo e menos matéria prima natural. Segundo, por questões financeiras e de crise econômica mesmo.
Se não dá mais para comprar roupas novas a cada estação, por que não trocar com as amigas ou comprar em brechós? Se o seu celular já não atende mais as suas necessidades, que tal vender ou mesmo doar para outra pessoa? Mas, por mais que esse repensar o consumo pareça algo novo, não é. Além dos motivos já citados, há também quem procure coisas usadas ou antigas principalmente pela questão do gosto pessoal e da valorização da história por trás daquilo que parece velho. Mas quem disse que o que é velho ou antigo é ruim ou não serve mais?
O Jornal do Meio visitou dois antiquários para descobrir o que motiva as pessoas a procurarem por algo que já tem alguns anos de uso. E encontrou curiosidades e uma maneira de enxergar o mundo que pode até ser considerado peculiar.
Nostalgia
Coincidência ou não, os dois antiquários que visitamos ficam no bairro Santa Luiza, um dos mais antigos da cidade. A região em si já traz um certo clima de nostalgia que, invariavelmente, se encontra em antiquários.
O bairro, assim como a Vila Aparecida, também um dos mais antigos, é uma mistura do moderno, (há um prédio espelhado bem em frente à Igreja), com o datado, com construções que parecem ter parado no tempo e nos fazem imaginar a cidade na época das ruas de terras, quase rurais. Curiosamente, os dois antiquários refletem essa característica do lugar, já que são opostos entre si.
Enquanto um tem a desorganização como atrativo decorativo, o outro parece uma exposição de design de interiores. Pode parecer que não há semelhança entre eles, mas há. Além do fato, óbvio, de trabalharem com objetos antigos, é evidente o gosto pelo que fazem e como isso passou de geração à geração.
Antiquário Bacana
Quem comanda o Antiquário Bacana é Antônio Ferreira dos Santos junto com a filha Lara Inaê da Silva Santos. O lugar existe há 10 anos e ali é possível encontrar de tudo. Desde videocassetes e máquinas de escrever, até placas de trânsito e carteiras escolares. Segundo o proprietário, tudo começou por seu gosto em adquirir coisas antigas. Aos poucos os objetos foram se acumulando, alguns conhecidos foram se interessando e ele decidiu montar um espaço para que pudessem ser expostos e vendidos.
O objeto que mais tem procura são as facas soracabanas, usadas por tropeiros que atravessam o país e que as tinham, também, como objeto de troca. “Eu nem consigo colocar essas facas para expor aqui na loja. Quando chega uma já ligo para algum interessado, enquanto outros estão na fila de espera.
Quem compra são colecionadores. Essas peças não são fáceis de repor porque elas nunca param aqui”. Muitas vezes Antônio acaba sendo apenas o intermediário entre quem quer vender e quer comprar.
A bagunça organizada do espaço é o que mais gera curiosidade dos clientes. São objetos amontoados, pendurados, acumulados e misturados. E esse é o charme do lugar. Quem chega ali fica perdido sem saber para onde olhar primeiro e, segundo Antônio, as pessoas gostam que seja assim para poderem ter o prazer de garimpar. “Tem gente que chega aqui procurando por uma coisa e acaba encontrando outra que nem imaginava.
Gente de fora da cidade vem até aqui, porque viu alguma coisa pela internet. Já aconteceu de objetos que saíram daqui irem parar em cenário de novela ou filme. Tudo aqui é antigo, muitos têm mais de cem anos, outros são dos primeiras décadas do século passado Mas está tudo em perfeito estado e funcionando”, conta.
Às vezes ele recebe encomendas também, a mais inusitada foi de uma pessoa que queria um penico. Decoradores passam sempre por ali, procurando algo que pode ser reutilizado ou transformado.
O maior público é de mulheres, pelo mesmo motivo, estão à procura de objetos para decoração. O próprio Antônio, muitas vezes, faz essas adaptações. Uma cama virou uma espreguiçadeira.
Televisões de tubo serão transformadas em aquário. Cada objeto ali é único, e é isso que a clientela procura; exclusividade.
Arco da Velha
Mais do que um antiquário, o Arco da Velha é um lugar de aconchego. Não só porque o espaço é repleto de cadeiras e poltronas convidativas, mas porque as responsáveis pelo lugar, a senhora Geny
Mestre Silveira e as filhas Ieda Gomes Carneiro e Maria Zilda Silveira Santos são muito boas de papo. Tudo começou a cerca de trinta anos, como uma loja comum de móveis usados, só depois que se tornou um espaço de antiguidades, basicamente com móveis também, porém móveis diferenciados.
Hoje, as vendas ocorrem, na maior parte, graças a internet. Segundo Ieda o público em Bragança é bem restrito. Público desse tipo de antiguidade de uma forma geral é, então nada melhor do que a rede mundial de computadores para unir possíveis compradores aos locais de venda. Outra forma de aproximar da clientela é participar semanalmente da feira do bairro do Bixiga, em São Paulo. E lá vão elas, todo domingo, selecionar peças, carregar caminhonete, descarregar caminhonete, mostrar álbum de fotos com as peças que não levaram.
“É importante participar da feira para conquistarmos clientes novos. Porque o problema de se trabalhar com esse tipo de antiguidade é que os clientes ficam com a peça por um bom tempo, então demoram para voltar. Mas às vezes retornam, depois de uns quinze anos, com um cartãozinho antigo”, brinca Ieda.
O trabalho no Arco da Velha é minucioso. De forma geral os móveis chegam em um estado desgastado. Para entrar no catálogo passam antes por uma reforma: troca de estofados, pintura, o que for necessário. E ficam como novos. “Alguns desse móveis têm mais de cem anos, outros são réplicas de móveis franceses, por exemplo. Tem gente que chega aqui dizendo que queria muito um móvel antigo, mas a família não aceita. Quando volta com a família, consegue mostrar que antiguidade não é exatamente o que eles estão imaginando. quem diz que não gosta, quando chega aqui se surpreende”, conta Dona Geny.
“As pessoas que nos procuram querem peças únicas. Acontece, por exemplo, de procurarem uma poltrona que temos aqui, mas de outra cor. Aí reformamos para deixar como a pessoa deseja. Outras mandam mensagem dizendo que procuram uma cristaleira de determinado modelo. Apresentamos as que temos no mesmo estilo, porque idêntica nunca vai ser. As peças de antigamente eram realmente feitas para durar, e eram todas feitas à mão, por isso, exclusivas”, explica Ieda.
Elas já chegaram a vender, pela internet, peças para um comprador que vive em Belém do Pará. Outro, do Piauí, as conheceu em São Paulo e pretende visitar a loja pessoalmente, em breve.
O que as proprietárias salientam é que móvel usado não é móvel antigo, Para ser considerado antigo, precisa ter pelo menos um século de fabricação. Móveis de 20, 30, 40 anos, não são antigos, apenas usados. Os da década de 1970 para frente são considerados móveis de época.
“A antiguidade entra e sai de moda de tempos em tempos. Hoje estão procurando muito os dos anos 70. Mas logo voltam a procurar novamente pelos antigos realmente”, falam.
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Para conhecer mais sobre os antiquários, acesse:
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