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Mercado Municipal completa 130 anos

publicado em 3 de novembro de 2017 - Por Shel Almeida

História do lugar se confunde com história da cidade, da carroça à entrega em domicílio, Mercado se mantém firme como ponto de comércio de alimentos

No domingo, dia 15 de outubro, o Mercado Municipal de Bragança Paulista completou 130 anos de existência. O espaço, localizado no centro da cidade é ponto de referência e também de encontro da diversidade presente hoje no município. Patrimônio histórico, agrupa, no mesmo local, o novo e o antigo, o tradicional e o moderno, a Bragança central e a periférica.

Quem passa por ali pouco nota, mas as paredes que sustentam o prédio de dois andares, carregam a história secular de transição de uma cidade que persiste em retomar velhos hábitos. O Mercado Municipal mudou desde sua fundação. Sua transformação mais notável é, sem dúvida, a arquitetônica, depois de passar por algumas reformas ao longo das décadas.

Mas é aquela transformação silenciosa e lenta a que mais carrega significados: a social. O espaço foi perdendo, aos poucos, a essência inicial, mas conserva a história da cidade e, principalmente, das pessoas que transitam por ali. Sua mudanças e transformações podem ser encaradas como um retrato da própria cidade, que também já não é mais a mesma, um século depois.
Inaugurado em um momento de transição histórica, em que o país deixava ser imperial e escravagista para se tornar República e foco imigratório, saber mais sobre sua origem é também reconhecer as bases onde Bragança se sustenta.

Para isso, o Jornal do Meio conversou com a historiadora Lilian Godoy, autora do trabalho “Do Toucinho a Café: O Mercado Antigo de Bragança (1884 – 1887). Ela é Mestranda em Educação pela Universidade São Francisco onde realiza pesquisa sobre a História do Mercado Público de Bragança e a Educação das Sensibilidades, imbricados na História Social e na História Cultural. É professora de História e pesquisadora do Grupo Rastros (CDAPH-USF). Desenvolve projetos na área de Patrimônio Cultural Regional de Bragança Paulista. Sua pesquisa se baseia em edições do jornal Guaripocaba, em atas de registro da Câmara Municipal da cidade e, ainda, em códigos de postura e regulamentos da época de inauguração.

 

Contexto Histórico

“A inauguração do Mercado está relacionada com as necessidades de ordem e higiene nos espaços públicos, que passaram a surgir devido ao aumento gradativo da população e do núcleo urbano que eram os principais disseminadores de doenças ocorridas durante os séculos XIX e XX. A criação de uma Praça de Mercado, como era chamada na época, tinha como intenção organizar os vendedores ambulantes, cuja grande maioria provinha das regiões rurais. A construção desse mercado local se dá em um período de urbanização do final do século XIX, com uma série de outros surgindo pelo Brasil cuja motivação é a de se ter um espaço nas cidades que seja instalado justamente onde há a movimentação de pessoas não letradas. Nesse contexto os Mercados Municipais são espaços para se educar uma sociedade não escolarizada, ou seja, onde aquela pessoa que nunca pegou em um lápis, que sempre trabalhou com a enxada vai aprender a lidar com o peso e medida das coisas, a lidar com dinheiro. É a modernização da época, que começa na arquitetura monumental e continua com o que chamado de ‘educação pela sensibilidade’ da população, a fim de que se encaixe no padrão social da época, a partir de um aprendizado que não é o escolar.
Nesse período, Bragança tinha um pequeno núcleo urbano e a extensão, inclusive muito próxima de onde o Mercado é instalado, era formada por chácaras e sítios, onde os alimentos eram produzidos para a subsistência dos próprios agricultores e familiares. Em um segundo momento, a cidade criou uma forte ligação comercial com a capital ao enviar os alimentos excedentes para lá. Não por acaso, o primeiro local pensado para a Praça de Mercado foi próximo à Igreja do Rosário, que naquela época ainda era ‘dos homens pretos’. O que se pode perceber é que essa relação com o comércio na cidade se constituiu a partir das pessoas mais simples, provenientes da região rural e não a partir da elite que estava surgindo por meio da indústria cafeeira. Portanto, a essência do Mercado está no povo rural desta cidade, nos pequenos produtores, nas pessoas que por longos anos iam para São Paulo no lombo de um burro levar alimentos, porque a capital não produzia. É importante lembrar, nesses 130 anos do Mercado, a importância dessas pessoas que tiveram suas histórias apagadas e colonizadas. Tudo isso aconteceu devido a um processo histórico e de consequências”, analisa a historiadora.

Trabalho que ultrapassa gerações

Muitos comerciantes que trabalham atualmente no Mercado cresceram ali. Função que atravessa gerações, é fácil encontrar quem frequenta o espaço desde criança e que viu o avô e o pai começar o que se tornou o negócio da família. E as transformações sociais se revela nisso também. Se antes os homens comandavam o comércio de alimentos em bancas, hoje muitas mulheres ocupam esse lugar. Exemplo disso são Maria Inês Olivato e Andreia Cristiane Olivato Azzi, tia e sobrinha e também Cássia Marisa Alves.

As três se emocionam ao relembrar do tempo que, ainda criança, passaram a frequentar o lugar. Na verdade, para elas, o Mercado faz parte da história pessoal de cada uma de tal forma que sequer conseguem lembrar desde quando convivem com o espaço, porque é desde sempre.

“Meu pai começou aqui na época em que se ainda usavam carroças e no piso inferior vendiam animais vivos e sacarias. É um trabalho que ultrapassa gerações. Quando ele começou, tudo o que se vendia aqui era produzido na chácara da família. Hoje apenas revendemos. Continuamos com a chácara, mas o que é produzido ali vai para a feira, que é onde meus irmãos trabalham. O público mudou junto com o Mercado e hoje exige outro tipo de mercadoria. Quem compra aqui também pegou o costume dos pais, é uma clientela que também passou por gerações”, conta Maria Inês.

 

Andréia é a terceira geração da família que trabalha no Mercado. O precursor foi seu avô, Orlando Olivato, pai de Maria Inês. Ela está há 35 anos na banca, trabalhando de domingo a domingo. Primeiro foi ajudante do pai, Roberto Olivato, depois ajudante da tia e já há um bom tempo é dona da própria banca.

Quando o pai faleceu, o marido Emerson Rogério Azzi passou a trabalhar com ela, fazer o serviço que o sogro fazia, de buscar mercadoria no Ceasa. Hoje o casal tem mais dois estabelecimentos dentro do mercado.

“A dedicação é total, eu cresci aqui, então para mim é natural. Com o tempo as coisas foram mudando, meu avô é da época em que colocavam os bornais com as mercadorias em pedras. Ele dizia ‘se for plantar alguma coisa, plante algo que gere frutos. Foi o ensinamento que ele passou para toda a família, ele nos ensinou a plantar e a trabalhar. Hoje é tudo diferente, fomos nos adaptando à clientela. Fazemos entrega. Depois comecei a picar frutas e verduras e colocar em bandejas porque uma cliente viu um pote que minha filha levava para a escola. Quando comecei as pessoas vinham comprar com sacolas de lona”, fala.

A história de Cássia é um pouco diferente, apesar de também frequentar o espaço desde pequena, ela só veio trabalhar no local depois que se aposentou.

“Meu pai, Geraldo Alves tinha uma grande preocupação em quem continuaria o negócio da família, que começou com meu avô, Cesarino Alves. Eu sempre pensei em vir para cá, mas não disse isso a ele. Hoje muitos conhecidos passam por aqui e me dizem ‘seu pai ficaria muito feliz em ver você dando continuidade. É realmente impressionante, o Mercado é uma referência para a cidade e pensar que hoje eu tenho a possibilidade de estar aqui me deixa emocionada”, fala.

De acordo com a Secretária de Desenvolvimento de Agronegócios, Gislene Cristiane Bueno, existe um projeto para melhorar a estrutura do espaço. “O Mercado recebeu atrações do Maio Cultural e do Festival de Inverno. É um espaço de tradição para a cidade é a ideia é atrair o público com atrações culturais. Nossa referência é o Mercado Municipal de São Paulo”.